Richard Sennett - O que o mercado de trabalho não pode esquecer Rui News

Precisamos de mais experimentos como
os que são chamados em inglês de ESOPs, que são empresas possuídas
pelos funcionários, onde os empregados possuem
ações do negócio, onde eles possuem…
pequenas ações, mas de qualquer forma eles são
partes da estrutura de propriedade. Vou descrever, na Inglaterra,
uma instância muito bem-sucedida disso. Chama-se John Lewis Organization. Ela possui mercados, lojas de móveis,
um grande serviço on-line, todos os empregados
têm ações da empresa, quanto mais trabalham,
mais ações recebem. Ela tem altos níveis de produtividade,
por que todos têm participação nela, para além de seus trabalhos. As pessoas contribuem para suas
aposentadorias voluntariamente, o que não ocorre
no resto do país. É como chamamos de poster child,
outra expressão da língua inglesa, uma espécie de modelo de excelência de como se ter uma ESOP operando
em uma economia avançada. Uma das coisas que acho deprimente é que, com toda a conversa
sobre outras coisas durante o Ano Internacional das
Cooperativas do qual falávamos, pensamos que as cooperativas
são para os muito pobres, sabe, como essas cooperativas de
microinvestimentos e assim por diante. O que não pensamos
é que as cooperativas, essa forma ESOP de gerenciamento
corporativo, é moderna, mas de fato pode ser
muito moderna. Outro exemplo de como isso
funciona é, por exemplo, os grandes consultórios médicos operados sob a forma de
esforço compartilhado, o qual temos alguns exemplos como
o Kaiser Permanente nos EUA, que é uma cooperativa,
eles não se parecem com pessoas muito pobres reunidas, eles são altamente produtivos porque
têm uma alta taxa de motivação para todos os seus membros. Então, é a questão que
o capitalismo financeiro tem agora de que cada vez menos pessoas
são proprietárias dos negócios em que operam. E as sociedades anônimas, sabe o que é isso,
onde as pessoas no poder têm responsabilidade limitada e ainda
assim estruturas bastante hierárquicas nas quais as pessoas no poder determinam
o que todos os outros recebem. Então, esse movimento cooperativo
é o inimigo disso. É sobre parcerias, sobre cooperação,
sobre motivação produtiva que vem de incluir mais pessoas
na estrutura de poder da empresa. E me deixe dizer mais uma coisa a respeito
disso, você apertou num botão que… Eu dei esse discurso
no mundo inteiro, então… Realizamos muitas pesquisas
sobre produtividade de empregados, em condições nas quais
existe um chefe e uma massa de funcionários
assalariados e onde há um chefe, mas a massa de
funcionários está ganhando ações, você entende, e onde
estão se tornando… E as taxas de produtividade
tendem a ser 40% maiores quando as pessoas trabalham porque vão
possuir parte da empresa à qual pertencem. E isso tem relação com a questão do curto tempo de emprego
no capitalismo flexível, a um nível no qual as pessoas
são trabalhadores/proprietários, eles são menos passíveis de partir,
de desertar de uma empresa. Em tecnologia, por exemplo,
é um grande problema, pois os ativos são imediatos, os ativos entram e saem
do trabalho todos os dias. Digo, o que faz da Apple uma empresa tão valiosa não é
eles terem um escritório bonito, são as pessoas que trabalham lá. Então, a criação de lealdade entre
esses trabalhadores qualificados vai até o final, você sabe, pessoas com
conhecimento institucional acumulado, que sabem como fazer as coisas
acontecerem em uma empresa. Depende de motivar
as pessoas a ficarem. E em um regime puramente neoliberal,
baseado em salários e riqueza, riqueza salarial, não vai
se fazer isso necessariamente. Então, minha resposta muito longa
à sua curta e provocativa questão é que temos que pensar em
novas formas de produtividade que são adequadas a essa economia,
que não são as de quanto você vai ganhar ano que vem, que são
muito mais a longo prazo e estáveis em novas formas.

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